3 perguntas para Paulo Coelho


O livro

O vencedor está só se passa no mundo das celebridades, onde todos querem ser vencedores. Por que você destaca, no título, uma parte pouco óbvia da vitória?

A idéia do vencedor está associada, sobretudo, ao fato de ser amado e estar em contato com todo o mundo. No fundo, você quer ser querido. À medida que você vai galgando os degraus da fama, você vai entendendo que existe, sempre, uma contrapartida a esse seu desejo, que é a seguinte: sim, você está conseguindo, mas ao mesmo tempo, todos que não conseguiram te vêem, por um lado, com muito fascínio, por outro lado, com uma certa amargura. Acho que o exemplo mais clássico que nós temos é o de Jesus, que chega recebido com glória no domingo, cercado de gente, com todos cantando Hosana e, já na quarta-feira, esse mesmo público que o recebeu no domingo o está condenando à morte. O livro toca muito nesse tema: como é a massa, de alguma maneira, facilmente guiada e dirigida. E a primeira coisa que você experimenta como líder, vencedor ou pessoa que chegou em algum lugar é essa profunda solidão.

Em que medida isso diz respeito à sua própria carreira internacional?

Eu tenho uma carreira bastante atípica, sou uma pessoa muito acessível, que sai e conversa com os leitores. Acho que a fama me permitiu abrir portas, e não fechá-las. Acontece às vezes de você estar com mil pessoas em volta durante o dia e, à noite, estar sozinho, lendo no quarto de hotel. Mas não é muito freqüente, porque optei por um caminho diferente, que é o desse contato que, aliás, é a matéria-prima do meu trabalho de escrever. Eu tenho uma grande admiração por Proust, por Joyce e por escritores que elegeram, digamos assim, a sua viagem interior. Mas não é o meu caso. No elenco dos meus escritores está Henry Miller, William Blake, enfim, pessoas que escolheram o contato, com uma exceção, que é o Jorge Luis Borges, que era extremamente solitário. Dito isso, eu vejo – porque convivo com muita gente que chegou aonde muitos sonharam chegar – que sempre existe essa sensação curiosa de que “ninguém me ama". Uma vez, numa mesa de bar com uma cantora muito famosa, ela dizia: “Paulo, acho que todo mundo me odeia." Eu dizia que não era possível, que ela estava no topo das paradas de sucesso, era querida. Mas ela achava que não.

Em O vencedor está só, quanto você viu e quanto teve que pesquisar?

Basicamente tudo eu vi. Aos poucos descobri que, no mundo da moda, tudo é controlado pelas boutiques de tendência, as grandes firmas que mandam pessoas para o mundo inteiro, para ficar observando as boates, as ruas, anotando... E chega um momento em que dizem: Olha, a tendência agora vai ser a água. As pessoas já passaram da fase de salvar o planeta, do aquecimento global, e estão indo agora para a fase “vai faltar água". Aí você se pergunta: quem foi o primeiro cara que teve idéia de vender água? E quem foi o primeiro que teve idéia de vender um terreno? E quem foi o primeiro que resolveu comprar e aceitar que aquilo era uma verdade? Então, você sabe que existe uma boutique de tendência. A partir daí, claro, eu quero saber o que é isso. E, aí sim, tenho que fazer pesquisa e conversar com as pessoas do meio, que sempre me deram pistas, mas sem que soubessem que eram pistas. Eu conversei, por exemplo, com um amigo que é detetive, sobre assassinos em série. Outro amigo meu é médico, especializado em emergência, e descobri que muitas dessas emergências são casos de envenenamento. E por aí vai, conversei com modelos, usei os contatos do meio, falei com pessoas em festas. Aí, quando chegou a semana da moda, eu disse: vou participar. Fui a vários desfiles. Já tinha ido a Cannes antes e tido a surpresa de que não é verdadeiramente um festival de cinema, ou seja, ninguém lembra que filme ganhou, mas todo mundo lembra que teve determinada festa. Então, no fundo, a pesquisa vem do contato que você tem. O cara te dá o fio de Ariadne, você vai atrás e chega aonde quer. Eu acho que, para quem não está na moda, este livro é uma surpresa.



Agência Frog